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e a militar, alêm de simultaneas e obrigatorias, são prática e agradavelmente feitas. No emtanto, com todos esses resultados, a dívida pública na Suissa, si hoje existe, é quasi nulla, e ainda mais em parallelo com a de outros paizes, que, apesar de muito maior riqueza e muito maior população, teem a instrucção assás inferiormente organizada e diffundida e são pessimamente apparelhados pâra a defesa (já não dizemos pâra o ataque).

O ideal da incomparavel confederação é não haver um unico homem analphabeto, entre os seus ordeiros e patrioticos habitantes, os quaes, entretanto, são de tres raças e falam, principalmente, tres linguas differentes (a franceza, a italiana e a alemã). E tambem, sem embargo de haver aquellas affirmações de neutralidade e inviolabilidade e de ser o seu territorio facilmente defensavel, insiste a Suissa em estar sempre prompta pâra manter illesa, em qualquer emergencia, a sua ciosa integridade. Pâra tanto, a Suissa (onde cada cidadão válido é um soldado), dispõe, alêm da tropa regular e landwher, duma valiosa reserva, o que, com essas fôrças referidas, fórma um total de algumas centenas de mil homens, perfeitamente aguerridos e disciplinados! É que o pequeno paiz, que Julio Cesar outrora conseguiu submetter ao poderio romano, e que o duas vezes heroico e hoje lendario Guilherme Tell contribuiu a libertar do jugo austriaco, é verdadeiramente grande, no patriotismo e no valor ...

O Japão, esse, é hoje um exemplo forçado, uma especie de logar-commum inevitavel, quando se trata de medir a capacidade emprehendedora e a energia progressista de um povo. No emtanto, não ha muito tempo, era tido como quasi barbaro, mesquinho, estiolado e insigni-. ficante, do que é prova o mui conhecido livro de Pierre Lo-...

ti, Madame Chrysanthème, no qual esse escriptor, « da Academia Franceza », com as scintillações do seu estylo, mas aliás frivolamente, pretendeu julgar o paiz, através dos mundanos e mal empregados ocios duma curta estação naval em Nagasaki !

Depois da célebre revolução do Meiji, em 1868, pâra cá, que transformação rapida, que renovamento prodigioso! Não só supplantou a China, donde recebeu a velha civilização, através da Coréa, como, actualmente, está instruindo e militarizando a primeira e se póde considerar o senhor da segunda... E, o que é mais, distinguiu-se, entre as potências alliadas, na repressão dos boxers, venceu a Russia e deixou a distância, em várias cousas, muitas nações occidentaes, que, ainda ha pouco, lhe tavam na deanteira!

E tudo isso por que? Porque o Japão possue, em alto grau, talvez como nenhum outro povo da terra, o carinhoso culto do Passado, que é o fundamento do edificio social, e o elevado sentimento do Patriotismo, que é uma verdadeira religião. Ahi, o passado se liga fortemente ao presente, num longo e vivo elo inquebrantavel! As almas japonezas vão transmittindo, de paes a filhos, os lances mais suggestivos e gloriosos das suas bellas tradições. O culto ancestral, a veneração, por assim dizer, ritual dos mortos e dos heroes acha-se por fórma tal fundida no sentir do povo, que, sôbre ser uma lei basica e uma necessidade imprescindivel, produz a impressão perfeita, e aliás agradavel pâra elles, de que os mortos convivem entre os vivos... O grande espirito feudal (e o feudalismo, no Japão, durou até uma epoca mui proxima e póde-se dizer de hontem) anima, valorosamente, os corações abnegados dos guerreiros e de todo o povo e faz vibrar o seu íntimo, qual uma enthusiasta e seductora canção nativa! O symbolismo, ahi, é tão desenvolvido, e o culto da Tradição é tão profundo, que, ha tempos, pretendendo o governo imperial aproveitar uns robustos e anti

quissimos cedros, do enorme bosque de Uyeno (1), pâra empregar a madeira em construcções navaes, teve que desistir do projecto, deante dos clamores populares e das considerações da imprensa (2)! É que, pâra os affectuosos japonezes, as veneraveis e soberanas árvores, alêm de lhes proporcionarem a meiga delícia de verdura e sombra, aninham uma alma e, pois, teem direito á vida como nós, principalmente quando adquirem ancianidade, tornando-se queridas como symbolos sagrados...

Transmitte a impressão duma adoravel felicidade o respectivo reparo de Oliveira Lima, no seu modo de escrever tão fino e penetrante, quando diz que o Japão conserva «o perfume das cousas idas nas que restam » (3). E, mais adeante: « Em parte alguma, os mortos governam mais os vivos e o passado explica mais o presente do que no Oriente» (4).

Vejamos agóra, de relance, o que fez o Japão afim de attingir o nivel moral em que hoje se acha. Um olhar retrospectivo pâra o seu passado nos mostrará como isso foi. Comquanto visitado, no seculo XII, pêlo famoso veneziano Marco Polo, que atravessou a Asia e, depois de regresso á Europa, deu publicidade ás suas extraordinarias Viagens, só entrou o paiz em relações directas com o Occidente quando os portuguezes o foram descobrir, por mar, entre os annos de 1534 e 1542, segundo as diversas referencias de mais nota. E, não obstante os arrojados feitos de Hideyoshi ou Taikosama, o chamado Napoleão japonez, que fez invadir e dominar a Coréa; os devotadissimos esforços de São Francisco Xavier, aliás coroados de êxito, de par com as aspirações dos portu

(1) Logar célebre, onde se travou uma memoravel batalha, que derribou os Tokugaua.

(2) PEDRO GASTÃO MESNIER, O Japão, Macau, 1874, cap. XI, págs.

234 a 23.

(3) OLIVEIRA LIMA, No Japão, Rio de Janeiro, 1905, cap. I, pág. 4.
(4) Idem, ibidem, pág. 6.

guezes, afim de christianizar e civilizar o Japão; e a agitação relampagueante da vehemente epoca de Yeyasu Goghensama, o vencedor da monstruosa batalha de Sekigahara, o qual expulsou os portuguezes e perseguiu o christianismo; não obstante tudo isso, alêm de outros arrancos de vibração interna, o imperio do Sol Nascente como que de proposito adormecia, pâra o resto do mundo, numa estacionária e mysteriosa penumbra e numa política extranha e rotineira. O proprio mikado não governava desafogadamente e, não ha muito tempo, o paiz se podia considerar privilégio dos taicuns ou, antes, xoguns (condestaveis do imperio, generalissimos das tropas, directores políticos do paiz, imperadores mascarados ou cousa que o valha), dos daimios (senhores feudaes ou territoriaes) e da classe nobre e militar dos homens que traziam as duas espadas, denominada samurais.

Mais tarde, porêm, começou a despertar. Em 1854, quando apenas Nagasaki, a antiga Decima dos portuguezes e dos hollandezes, era o unico pôrto japonez aberto ás nações extrangeiras, entrou o commodoro norte-americano Perry, sem a menor ceremonia, na cidade de Uraga, e, com alguns fortes navios de guerra e com os canhões promptos a fazerem troar a voz humanitaria, exigiu a assignatura amigavel de um tratado de commércio entre o Japão e o seu paiz... O Japão, inerme, depois de reclamar contra a violencia, teve que ceder! Dez annos após, tendo um daimio atirado sôbre uns navios extrangeiros, em Ximoneseki, as nações colligadas, como represalia, fizeram bombardear a cidade por uma poderosa esquadra, e, concomitantemente, exigiram uma indemnização de guerra, que o Japão foi obrigado a pagar!

Esses e outros factos, que fundamente feriram orgulho nacional cousa que os japonezes possuem em alto grau naturalmente haveriam de contribuir, e muito, pâra provocar uma reacção qualquer no ânimo do povo, cujo ideal ardente era ver-se livre da tutela GX

tranha, não depender de ninguem, contar com as suas proprias fôrças e, ainda mais, elevar-se á mesma altura dos que, até então, lhe pautavam o proceder! Foi isso o que estupendamente realizaram os políticos do Meijiesse ultra benefico movimento revolucionário, a Renascença japoneza, que, derribando e abolindo o xogunato, concentrando a acção governativa nas mãos do imperador, fortalecendo o throno, afinal transformou todo o paiz.

Reconhecida a necessidade de se adoptar a civilização occidental, no que ella possuia de mais util e imitavel (diz o auctor do Japão por dentro), «o paiz escolheu a fina flôr de seus filhos e organizou-os em numerosas missões que se espalharam por todo o mundo, encarregados d' estudar os assuntos que a cada uma foram designados » (1). « Pela eficácia destas missões que no regresso apresentavam ao Micado o relatorio dos seus estudos e observações, responde o actual estado de civilisação a que o Imperio do Sol Nascente chegou » (2). Não se pense, porêm, que o Japão foi assim adoptando cegamente, sem selecção nem adaptação, os melhoramentos europeus: pêlo contrário, sujeitou-os a uma anályse rigorosa, e, o que é mais, nacionalizou-os, japonizou-os, isto é, fel-os de accôrdo com a indole do povo, infundiuÍhes o caracter nacional. De modo que a civilização occidental se transplantou no solo nipponico facilmente, reflectidamente, mas de todo em todo sem prejudicar as muito enraizadas e prezadissimas tradições populares ! Isso vem pôr em relêvo algumas das principaes qualidades caracteristicas dêsse povo sui generis: a sua malleabilidade, mas, tambem, a sua impenetrabilidade; o seu espirito progressista, mas, ao mesmo tempo, o seu espi

(1) LADISLAU BATALHA, O Japão por dentro, Lisboa, 1906, cap. VIII, pág. 69. (2) Idem, ibidem, pág. 70.

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