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rito conservador; a sua faculdade de assimilação, mas, de outro modo, a sua fôrça de resistencia!

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O ensino, aliás obrigatorio, que, a princípio, era feito por uma chusma de professores extrangeiros, hoje o está sendo, na maioria, por milhares de professores japonezes. Ha uma infinidade de escolas primárias (26.322, até pouco tempo), 174 jardins da infancia, muitas escolas secundárias e normaes, 2 universidades do governo e um sem número de escolas complementares, technicas e annexas e de instituições particulares pâra ambos os sexos. Como na Suissa, a instrucção physica se ministra simultaneamente com a intellectual, e a militar juntamente a civil. Nesse ponto, ha uma circumstância verdadeiramente notavel: o estudo da história nacional é feito com tal carinho e tal cuidado, que adquire uma nota muito á parte: ahi se fazem patrioticamente vibrar, nas esperançosas almas dos jovens japonezes (inclusive as mulheres, cuja educação tambem deve abranger esse curso), os mais brilhantes episódios dos fastos do paiz, e se mostra qual tem sido o papel das nações extrangeiras no Oriente... Quanto ao ensino militar (obrigatorio, já se sabe), excusado será dizer que começa desde os mais verdes annos, com imaginavel e enormissima vantagem! Pâra se ver em que consideração o governo e o povo japonezes teem o ensino, basta citar um trecho do rescripto imperial, de 1872, cujo pensamento se acha em via de realização: «< O nosso objectivo é que a instrução deixe de ser privativa de alguns, para se derramar a tal ponto que não haja mais uma aldeia com uma familia ignorante, nem uma familia onde exista um membro ignorante » (1).

O espirito de imitação acompanhado do desejo de produzir sempre melhor, a habilidade, a diligência, a perseverança, o sentimento da honra nacional chegam a tal ponto, principalmente entre os administradores do Ja

(1) LADISLAU BATALHA, O Japão por dentro, cit., cap. V, pág. 49.

pão, que esse povo (que, ainda bisonho, apprendeu a fabricar as primeiras espingardas com os portuguezes, e os primeiros navios, sem incluir os seus primitivos juncos, com o pilôto inglez William Adams), alêm de hoje dispôr de um exército realmente modêlo e duma esquadra homogenea e admiravel, tem armamentos seus, dos mais aperfeiçoados, e estaleiros de primeira ordem, arsenaes importantissimos e magníficos portos de refúgio, carvão nativo e explosivos proprios (como o inventado pêlo dr. Ximose), as excellentes espingardas e canhões Arisaca e os torpedos-mina Oda! Por ahi se vê que os japonezes não possuem, apenas, a grande faculdade assimiladora e imitativa, que tanto os distingue, mas ainda um extremamente prático e assás vigoroso poder de crear.

Comquanto seja, porventura, o povo mais cortez do mundo (talvez em excesso mesureiro), porêm jámais servil, eminentemente cultiva, na sua alma pundonorosa, com uma paixão fanatica, o sentimento do civismo e do orgulho nacional. É por isso que, de bom grado, se comprehende que elle houvesse realizado, na expressão de Oliveira Lima, «o maior milagre da intelligencia humana que a historia registra», o qual << resplandece como um prodigio de esforço e um ensinamento para a humanidade » (1).

(1) OLIVEIRA LIMA, No Japão, cit., cap. I, pág. 15, e idem, ibidem, cap. IX, pág. 303.

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oi dando curso a esses pensamentos, e a proposito da idéa que deve estar contida e expressa na bandeira e nas armas do Brasil, que, recolhidamente, affectivamente, volvemos o espirito pâra o scenario íntimo da Patria, afim de examinarmos os seus elementos de vida e resistencia, em face do moderno imperialismo e das paixões mal contidas das nacionalidades. E, occorrendo-nos logo a sediça,. mas eterna comparação de Platão, na sua República, deque o estado é a imagem do homem, somos levados a crer que, pâra se operar o funccionamento normal dêsse organismo, pâra estabelecer um perfeito equilibrio entre a acção da alma e do corpo, de modo que produza a vida serena e forte, sería mistér desenvolver, o mais lucida, prática e energicamente possivel, a instrucção geral e obrigatoria (abrangendo, necessariamente, o culto da Tradição) e a fôrça material offensiva e defensiva. Da consecussão e immediata regularização dêsses dous princípios vitaes por excellencia (os quaes dependem, naturalmente, do factor economico), elevados, progressivamente, a um alto grau de aperfeiçoamento methodico e intelligente, irradiaria, por

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certo, no céo da Patria, a aurora propícia e esplendorosa dêsse justo e sacratissimo ideal, com tanta e tanta ancia desejado a nossa integridade perfeitamente garantida, a nossa soberania posta a salvo de qualquer ataque!

Virá isso, um dia, a converter-se numa bemdita e positiva realidade, ou não passará, unicamente, de pura aspiração acariciada? Vem a pêlo relembrar o velho e popular proloquio: «O futuro a Deus pertence »... Todavia, a elevada noção de patriotismo (que não é, ou não deve ser uma utopia), e o frisantissimo exemplo de outros povos, que, afinal, não são mais capazes do que nós, pêlo menos em princípio, induzem-nos a jámais esmorecer ! Êste paiz, que ha fornecido ao mundo tantos vultos consagrados e ha cooperado, com os mais nobres elementos, pâra a larga realização do ideal humano, êste paiz (repetimos) não tem absolutamente o direito de se recolher á sombra dos louros conquistados: o seu fim é expôr-se á plena luz ! Póde, portanto, confiar em si... Tudo é possivel conseguir, quando, na terra, existem homens de boa-vontade... No Brasil (justiça é confessal-o), embora ainda perdurem certos hábitos egoistas e estreitos, que precisam acabar a bem geral, nota-se, de facto, sinão em toda a parte, ao menos em alguns centros, uma sensivel e salutarissima reacção, um louvavel e nobilissimo desejo de acatar a opinião pública, de algo fazer de elevada e duradouramente util e bom em prol da Patria! A segura e brilhante orientação da nossa actual política externa e os rapidos e importantissimos melhoramentos que se iniciam no paiz são um sobejo e fecundo exemplo disso! Parece que uma nova era, de pujança e de esplendores, alvorece pâra nós, desvendando-nos, não longe, horizontes até então desconhecidos... Abençoado movimento, ditosissimo disignio! Oxalá se generalize e se encarne essa idéa, de tal modo, no sentimento popular, que produza, como a dos japonezes, a nossa immarcessivel Renascença, si é que podemos comprehender o renascimento de um povo que ainda não chegou

á virilidade e, portanto, não culminou na sua maior grandeza!

Por que não faremos como a Suissa e, particularmente, como o Japão, isto é, por que não haveremos de imitar e aperfeiçoar o que os extrangeiros teem de imitavel e aperfeiçoavel, porêm conservando, sempre, as nossas tradições? Desenvolvamos as nossas indústrias, acoroçoemos as nossas artes, diffundamos os mais vantajosos conhecimentos, procedamos com justiça, combatamos pêlo bem, mas sem jámais perder de vista a felicidade particular da Patria e o fim geral da Humanidade. Numa palavra, NACIONALIZEMO'-Nos e, ao mesmo passo, UNIVERSALIZEMO'-NOS! Porêm, primeiramente, nacionalizemo'-nos, porque disso depende tudo o mais!

Unifiquemos as nossas tradições, que não são das menos bellas e gloriosas! Pêlo contrârio: reservam muitos exemplos civicos de poesia, de nobreza e de heroicidade! Ahi estão as primitivas e encantadoras passagens do descobrimento e da conquista; as scenas impressionantes e evangelicas da catechese abnegada; os briosos e imperterritos impulsos, outrora felizmente postos em prática, afim de repellir o extrangeiro, por várias vezes e em diversos pontos, do torrão natal; os quadros dramaticos e grandiloquentes da epopéa pernambucana, durante a invasão hollandeza, os quaes terminaram com a apotheose da memoravel batalha dos Guararapes; o arrôjo temerario e pertinaz dos sertanistas, impetuosamente arrastados ao Desconhecido, pêla faina intensa das bandeiras; os episódios sonhadores e tristonhos dos revolucionários de Minas, cujo remate foi o martyrio de Tiradentes e o degrêdo dos seus cumplices; o inesquecivel e digno trabalho patriotico dos benemeritos emancipadores políticos de 1822; o devotamento, tantas vezes sagrado em sangue, dos heroes do Prata, nas tres guerras consecutivas, em que o pavilhão auriverde sempre triumphou; a provada philanthropia e o ardor atheniense dos incansaveis paladinos da campanha abolicio

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