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ería abusar do pacientissimo leitor, que não pretende ser brasonador, nem fanfarreia proezas heraldicas, si nós já e já não passassemos á parte esthetica dêstes reparos, mau grado nosso alongados.

O bello sempre foi e ha de ser sempre o mesmo. Não ha, pois, necessidade de assentar princípios que já estão assentados, desde que existe civilização... Os gostos é que variam, conforme o objecto, as tendencias e a cultura do indivíduo; mas o bello é, em toda a parte, um só. Quer o façam consistir na << harmonia » de Pytha goras; quer o definam com « o esplendor da verdade >>, ou «o reflexo suavizado do verdadeiro », segundo as expressões vulgarmente attribuidas a Platão ou a Plotino; quer o considerem que agrada universalmente sem noção », de Kant; quer o julguem << o esplendor da ordem », do padre Lacouture, etc., etc., certo é que a concepção do bello é immanente e inconfundivel no espirito do homem, e só ahi encontra cabal explicação, pois que é um sentimento necessario, eterno, universal. O bello é, por assim dizer, indefinivel, ou, por

como

outra, encerra a definição em si mesmo: o bello é o bello... É que elle fórma, com o util, o verdadeiro, o justo e o bem, as cinco linhas geometricas dessa estrella ideal de cinco raios, em que se molda e se funde a alma humana, visando o princípio e o fim de tudo!

Mas, apesar disso, elle contêm elementos caracteristicos, que são apprehendidos, estudados e classificados e que servem de requisitos indispensaveis ou de lei constitutiva a toda obra de arte digna dêsse nome. Taes são, em synthese, a ordem, a proporção e a harmonia, pâra uns; a variedade, a unidade e o esplendor, pâra outros, Alguns ha, ainda mais concisos, e exigem, apenas, a ordem e o movimento, que são como que a fórma e a essencia, o corpo e a alma das cousas... Era essa ordem e esse movimento, que em tudo admiramos na Natureza, que Buffon solennemente exaltava, no seu célebre Discurso sôbre o estylo!

Resta saber, agóra, si naquella desordem, naquella desegualdade, naquella incongruencia, naquella monotonia, naquella falta de unidade, naquelle lusco-fusco enigmatico, que se notam na redonda figura da bandeira, se consubstanciam as qualidades essenciaes duma esthetica imaginavel...

Os particularmente interessados, porêm, querem levar a questão pâra outro lado, e, muito de indústria, perguntam si um republicano e um monarchista podem achar egualmente bellas a república e as suas instituições quaesquer (sic). A pergunta, alêm de cavillosa, é um tanto disparatada. E sería natural que, collocando a questão no verdadeiro terreno, pois não se trata de política, outros, por sua vez, perguntassem: Acaso um positivista e um catholico podem achar egualmente bella a bandeira (e não a fórma de govêrno) actual ? . . .

Em seguida, perguntam como hão de discutir a belleza duma bandeira com quem renega os liberaes, os largos, os universaes princípios que a instituiram? Está visto

que a demasiada honra dessa malevola imputação não nos póde caber, mesmo porque, logo ao iniciar a publicação do nosso primeiro trabalho, declaramos sem rebuço, com Sylvio Roméro: «Nós somos republicanos e uma das virtudes da república deve estar do amor á verdade e á justiça » ...

Si tal artimanha se refere a Eduardo Prado, então a insídia ainda é maior, porque se trata de um morto, e de um morto illustre, que, demais, não alimentava a paixão que lhe querem attribuir. Eduardo, antes de ser monarchista, era brasileiro, e, antes de ser brasileiro, nascera uma delicada e serena alma de estheta! Podia, pois, com a visão clara e o verdadeiro sentimento das cousas, apreciar as qualidades ou os defeitos da bandeira republicana. Infelizmente, pâra elle e pâra nós, essa bandeira (que devia ser, tambem, a bandeira do Brasil) não correspondeu aos mais justos desejos da generalidade, nem observou os dictames da arte e do bom-senso. E, por isso, Eduardo criticou-a. Nada mais natural, nem mais legítimo.

Mas, por Deus ou pêla Humanidade, não o acoimem de falta de amor á patria, que outra cousa se não deduz do que deixaram transparecer! Dêsse labéo de mau brasile:ro ou de mau patriota, com que tentaram deprecial-o alguns espiritos que veem falsamente os factos, já o defenderam, com tanto brilho de convicção, quanto de estylo, Affonso Arinos, no seu discurso de recepção na Academia de Letras, e Olavo Bilac, em resposta a esse discurso. Leiamse alguns trechos do proprio Eduardo, escriptos e publicados em plena república (1901), como, por exemplo, certos fragmentos da sua Polemica (2.a parte do 4.o vol. das Collectaneas), e ver-se-á a sem razão dêsse juizo. Por essas elevadas e singelas declarações vê-se como o saudoso e preclaro brasileiro amava e comprehendia a sua patria! E note-se que, mais de uma vez, teve Eduardo occasião de fazer justiça à homens e cousas da República. Não sería pêlo simples facto de ser monarchista que aquella

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privilegiada alma, generosa e tolerante como era, iria achincalhar o que realmente merecesse culto ou consideração! Convem fazer ver que os que renegaram os goados e solennes princípios da liberdade, da egualdade e da fraternidade foram os proprios instituidores da bandeira actual, e não os demais brasileiros. Não crêa o lemma positivista uma especie de coacção, de desegualdade e de desunião entre o povo? Aos seus verdadeiros donos se devolve, pois, a balda com que pretenderam turbar a discussão.

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É mau argumento dizer que a reacção que, mais ou menos, sempre existiu contra a bandeira actual e que, cada vez mais, se accentua retarda o progresso porque só progride o que se conserva em ordem. Mas só se conserva o que, de facto, é conservavel, e a actual bandeira não o é. A noção exacta de ordem e progresso até nos convence de que, em virtude dêsses mesmos princípios, devem ser tenazmente combatidos os inconvenientes e os defeitos da bandeira actual, afim de a aperfeiçoarmos pâra o bem de todos. Porque o que ora existe é, justamente (sem querer fazer trocadilho), a imagem da desordem do regresso cousas que ainda reinam em muitos dos nossos espiritos, mas que, absolutamente, não podem traduzir o estado geral da civilização brasileira! É essa mesma ordem e é esse mesmo progresso (que devem existir, não em letreiros ridiculos e contraproducentes, mas dum modo real, no espirito do povo) que nos fazem, com mais firmeza, confiar em que isso que ahi está e ainda perdura, pâra nosso mal e nossa vergonha, não ha de sempre permanecer; ha de ser aperfeiçoado, mudado pâra melhor... Assim o Brasil terá, e ha de ter, um pavilhão perfeitamente ordeiro e progressista, que, com razão, se faça idolatrar e servir de estímulo perenne pâra o Povo! Argumento porventura menos subtil, mas incontestavelmente muito mais sincero, é esse pêlo qual, embora reconhecendo os êrros e as desvantagens da bandeira actual,

aconselham a que nos devemos resignar com isso, porque o que está feito está feito, e a vida é cheia de contínuos sacrifícios! Mas os que dêsse modo pensam, com uma simpleza primitiva, desconsoladamente esquecem que (alterando um pouco a fórmula popular) o que tem remédio remediado está... Pâra isso é que se fizeram os homens, e as deliberações, e as refórmas!

Sentimentos bons a creação enxertada na bandeira não os desperta, verificada a intolerancia da sua procedencia; impressões reaes essa figura não as produz, attenta a impossibilidade daquelle céo jámais visto e concebido; gôsos estheticos esse conjunto não os inspira, apreciada essa burlesca e falha representação, em que não ha verdade, nem vida, nem belleza, nem incitamento algum!

Talvez isso houvesse acontecido porque os auctores da bandeira quizessem que ella realizasse uma esthetica do futuro (como pretendem pâra a astronomia), pois que, na sua elaboração, não vimos a observancia daquella regra singular, imposta por Véron, isto é: « a necessidade duma certa conformidade com a maneira de sentir e comprehender do público ao qual o artista se dirige » (1). Todas as obras de arte, todas as creações humanas foram feitas pâra o seu meio e pâra a sua epoca; a bandeira, não ! É que ella não condensa os elementos conhecidos da sensação esthetica, embora seja um prodigio de arte, como proclamam... Póde ser que ella venha a celebrizar-se mais, no seu genero, do que as admiraveis e eternas obras-primas da Iliada de Homero, da Venus de Milo ou da Symphonia pastoral de Beethoven, por exemplo! Nós é que, com o estado actual da arte, não comprehendemos, não podemos comprehender esse majestatico e unico estandarte... Acaso haverá esthetica naquelle rótulo torto e pretencioso, naquelle enfeite redondo de palhaço, ou (si quizerem) naquelle balão desorientadamente estrellado, em

(1) EUGENE VERON, L'esthétique, introd., París, 1878, pág. VII.

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