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DEDICATORIA

OU

Á memória daquELLES QUE, PÊLO ESPIRITO ARMAS, ENGRANDECERAM O PASSADO VIVO DO BRASIL ;

PÊLAS

AO EXÉRCITO E Á MARINHA NACIONAES, QUE AMPARAM

A NOSSA PATRIA NO PRESENTE;

AOS ESTUDANTES DAS ESCOLAS BRASILEIRAS, QUE SERÃO OS PREPARADORES DAS GERAÇÕES FUTURAS,

OFFERECE

O AUCTOR.

odos os povos possuem uma alma confirma Gustave Le Bon, num livro rico em observações judiciosas, apesar de alguns

desacêrtos que contêm contra o Brasil (1). Essa alma é composta de sentimentos, interesses e crenças communs. Todo povo que não tiver uma alma nessas condições, está fatalmente condemnado a morrer. A cohesão ethnica, um ideal forte, numa palavra, o culto das tradições, que são a synthese da alma das raças, eis o meio de, virilmente, um povo se manter. Dahi, a importancia maxima que devem ter as tradições pâra um paiz. Ellas são quaes muralhas cyclopicas e impassiveis, que susteem os embates sociaes e impedem as dissoluções dos povos.

Quando tristemente meditamos em que o poderio romano baqueou minado pêla invasão lenta e pacífica dos barbaros, e os annaes contemporaneos registram a espoliação de nada menos de meia duzia de paizes fracos absorvidos pêlos fortes; quando vemos o processo da << selecção natural » applicado á história da humanidade por espiritos como Bagehot (2) ou como

(1) Lois psychologiques de l'évolution des peuples.
(2) Lois scientifiques du développement des nations.

X

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Gumplowicz, outro darwinista em sociologia, que converte num quasi dogma scientífico êste golpeante enunciado: «a perpétua lucta das raças é a lei da história, ao passo que a paz perpétua não é sinão o sonho dos idealistas» (1); quando sabemos estarem longe as miragens de fraternidade universal, vislumbradas por Tolstoi e Novicow, pois em plena conferência chamada da paz, em Haya, vimos querer prevalecesse o criterio da fôrça bruta sôbre o direito; quando, finalmente, assistimos á emulação das nações, que se blindam em couraças e se multiplicam em canhões, ao mesmo tempo que vão educando as massas, com o duplo fim de realizar a integração ethnica e a unificação do caracter nacional, não é justo, sem dúvida, permaneçamos na estagnação e no desânimo!

É verdade que a transformação que, em menos de um lustro, hemos operado com intenso brilho ( talvez mais rapida, afinal, que a do Japão), e a trindade olympica incorporada em Rio Branco a propria encarnação do patriotismo illuminado, em Ruy Barboque entre os primeiros das nações foi o primeie Joaquim Nabuco-o representante masculo do atticismo da nossa raça — fartamente provam que somos capazes de demonstrações heroicas, e que o brasileiro não é assim «um typo indescriptivel, cuja

sa

ro

(1) GUMPLOWICZ, La lutte des races, Paris, 1893, liv. IV, cap. XXXIX, pág. 261.

XI

energia physica e mental se enfraqueceu » (1)! Todavia, quanto ainda nos resta que fazer!

E, como os povos vivem, principalmente, de tradições, como os seres organizados vivem de luz; e, como os symbolos e as imagens são pâra os povos o que os affectos e as idéas são pâra as almas, preciso é se tenha em verdadeira conta essa questão dos emblemas nacionaes, visto delles derivar um complexo de circumstâncias que profundamente vão influir nos sentimentos de honra que se traduzem pêlas expressões-integridade territorial e unidade moral da Patria.

Ora, pâra nós, que somos um povo visceralmente idealista e apaixonadamente amigo de symbolos e de imagens, a bandeira actual, de modo algum, póde servir. Ella não passa de uma burla genuina, quer como sciencia, quer como arte, quer como symbolo, quer como ideal patriotico. Os symbolos nacionaes, por isso mesmo que pertencem ao paiz todo, devem ser imagens verdadeiras, e não falsas, vehementes, e não apagadas, da sublime e animadora religião da Patria! Precisam, por todos os meios, vibrar funda e perennemente o patriotismo, porque o patriotismo é o ins

(1) AGASSIZ, cit. por LE BON, Lois psychologiques de l'évolution des peuples, París, 1907, cap. V, pág. 45, nota.

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