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pessoas fidedignas, escreveo miudamente esta historia em hum livro manuscripto, fundamento principal, donde se tirou o que trazem os demais authores.

67 Celebra Geraldo Montano em sua Centuria o santo varão Ignacio de Azevedo com os versos seguintes:

Qui novus ille pugil, cujus de pectore fusus
Nereus in medijs æstuat ignis aquis?

Non undæ, fluctusque virum, teretesque sarissa
Obruere, ingesto nec valet amne Thelis.
Effigiem Divæ manibus tenet ille potentis,
Vellere, nec ferrum hanc, nec Libitina potest.
Alma fides, pietasque sacros de vertice crines
Solvit, et æquoreas fletibus auget aquas.

Sed charis ante omnes, sed nec charis ipsa, nec omnes
Flexerunt animos perfida turba tuos.

EPILOGO DOS MAIS COMPANHEIROS QUE MORRERÃO PELA FÈ DE CHRISTO

68 0 Irmão Bento de Castro, Portuguez, natural de Chacim do Bispado de Miranda, de 27 annos de idade, nove da Companhia, estudante, com tres arcabuzadas, e sete punhaladas, meio vivo lançado ao mar: foi o primeiro de todo este santo esquadrão que deo a vida pela Fé Romana, hindo meter-se qual soldado valeroso entre os inimigos que entravão a náo, só com a cruz na mão, insignia das armas de Christo. Desde Noviço pedia a occasião de martyrio. Fazia na não officio de Mestre de noviços, em virtude e charidade insigne.

69 0 Irmão Diogo Pires de Nicea, Portuguez, natural da Villa de Nisa, Priorado do Crato, estudante philosopho, atravessado de huma lançada, foi lançado ao mar. Este bemaventurado mancebo teve a occasião de seu ditoso fim, seguinte. Faltando hum dia em sua classe, mandou o o Mestre castigar, recebeo o castigo com sujeição, mas depois d'elle deo a escusa que tivera pera faltar a sua obrigação; dizendo, que fora ao Mosteiro de Valverde, legoa e meia da cidade de Evora, pedir áquelles Religiosos o admitissem por Irmão. Sentio-se o Mestre de não ter dado tão santa escusa, louvou-lhe o intento, e contou-lhe acaso a escolha que outros estudantes

fizerão de acompanhar o Padre Ignacio de Azevedo pera Lisboa, e d'alti feitos Religiosos pera o Brasil. Foi este o meio da predestinação do nosso estudante; bastou tocar-se, e logo assentou em seu coração caminhar em busca de Ignacio, e ser hum de seus companheiros, e de effeito foi recebido d'elle, e hum dos mais fervorosos que chegarão a alcançar a ditosa palma.

.70 0 Irmão João de Mayorga, Pintor, Castelhano, natural do Reino de Aragão, de trinta e cinco annos de idade, tres da Companhia, vivo ao mar. 71 0 Irmão Gonçalo Henriques, Portuguez, natural da cidade do Porto, Diacono, ao mar.

72 0 Irmão Manoel Rodrigues, natural da villa de Alcochete, estudante, ao mar.

73 0 Irmão Manoel Pacheco, Portuguez, natural da cidade de Ceita,

ao mar.

74 0 Irmão Estevão Zurara, natural de Biscaya, Coadjutor, ao mar. Era este Irmão Roupeiro no Collegio de Placencia, de grande virtude, e amado de todos: seguio de boa vontade ao Padre Ignacio, por que estando em exercicios espirituaes, lhe mostrou o Ceo, que n'esta missão havia de dar a vida pela Fé Catholica. Assi o declarou depois seu Confessor, a quem ells descobrio a revelação, que era n'aquelle tempo o Padre Joseph da Costa. Refere este successo o Padre Sacchino, na In parte das Chronicas da Companbia, liv. 6, n.o 233; e Eusebio Nieremberg no tomo i dos Varões illustres da Companhia, fol. 254, columna 2.a, no principio. Estes quatro Irmãos acima immediatos forão lançados dos hereges ao mar no tempo da briga, não se sabe se mortos, ou vivos, ou feridos: nem elles souberão da morte de seu pai Ignacio, impedidos do estrondo das armas.

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75 O Irmão Manoel Alvares, Portuguez, natural da cidade de Evora, Coadjutor, retalhado o rosto a cutiladas, e feitas em pedaços as canelas das pernas, e ossos dos braços com canos de arcabuzes, ainda vivo foi lançado ao mar. Era este Irmão pastor, guardava seu gado na simplicidade do campo quando entrou na Religião: havia quinze annos que vivia n'ella com bom exemplo: não sabia as especulações do espirito, porém sabia a praxe d'’elle,es com tanto acerto, que mereceo revelar-lhe Deos a ditosa morte que havia de padecer por seu amor. Sahia hum dia de seu cubiculo, a tempo que os Religiosos acabavão a hora da oração mental que usa a Companhia, como arrebentando do peito, ora pondo os olhos no Ceo, ora cruzando os braços, e outros semelhantes fervores. Notou acaso hum Padre gravissi

mo por nome Pedro Luis, que então era Irmão, suas acções; e perguntando-lhe a causa, respondeo cheio de alegria: «Irmão Pedro Luis, não se espante; porque n'esta hora de oração que tivemos, me mostrou o Senhor, que hei de ir pera o Brasil, e que no caminho hei de morrer martyr, e que me hão de quebrar os braços, e as pernas por seu amor.» Antiguo he communicar-se Deos aos pastores: e este favor excedeo o de muitos, de hum Moysés, de hum Jacob, e de hum David. Esta revelação corria como cousa certissima no Collegio de Evora, e se combinou com o effeito, com espanto dos que a sabião. Podemos comparar este santo Irmão a hum SanTiago Interciso, pelo modo com que foi retalhado, e despedaçado em rosto, braços, e pernas.

76 0 Irmão Simão da Costa, Portuguez, natural da cidade do Porto, Coadjutor, novico, de vinte annos de idade, degolado e lançado ao mar. 77 0 Irmão Manoel Fernandes, Portuguez, natural da villa de Celorico, Bispado da Guarda, estudante, vivo ao mar.

78 0 Irmão Braz Ribeiro, Portuguez, natural de Braga, Coadjutor, de vinte e quatro annos de idade, e sete meses não mais da Companhia, quebrada a cabeça com a maçã da espada, até lhe saltarem os cerebros, logo espirou.

79 O Padre Diogo de Andrade, Portuguez, Ministro Sacerdote de ordens sacras, natural da villa de Pedrógão, foi o primeiro que depois da sentença de Soria, passado a punhaladas, meio vivo foi lançado ao mar.

80 0 Irmão Antonio Soares, Portuguez, natural da villa de Pedrógão, Soto Ministro, passado a punhaladas, meio vivo lançado ao mar.

81 0 Irmão João Fernandes, Portuguez, natural da cidade de Lisboa, estudante, com dous annos da Companhia, passado a punhaladas, meio vivo lançado ao mar.

82 O Irmão Pedro de Fontoura, Portuguez, natural da cidade de Braga, Coadjutor, cortado o queixo, e a lingua, lançado vivo ao mar.

83 0 Irmão Luis Correa, Portuguez, natural da cidade de Evora, estudante, passado a punhaladas, meio vivo lançado ao mar.

84 0 Irmão Luis Rodrigues, Portuguez, natural da cidade de Evora, ́estudante, passado a punhaladas, meio vivo lançado ao mar.

85 0 Irmão André Gonçalves. Portuguez, natural de Vianna, do Arcebispado de Evora, estudante, passado a punhaladas, meio vivo lançado ao mar. 86 0 Irmão Affonso Bayena, Coadjutor, mal ferido, e lançado ao mar. 87 O Irmão Francisco Peres de Godoi, Castelhano, natural de Torri

VOL. II

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jos, Bispado de Salamanca, com muitas feridas lançado vivo ao mar. D'este santo Irmão escreve o Padre Luis da Ponte, na Vida do Padre Balthesar Alvares, cujo noviço foi, que estudando em Salamanca, se recollieo a nosso Collegio a fazer os exercicios espirituaes de Santo Ignacio, e foi tocado de Deos perá deixar o mundo, e recolher-se na Companhia. Era homem galhardo, e valente, prezava-se muito de seus bigodes, que trazia crescidos, e autorizados por estes pretendeo o inimigo de nosso bem prendel-o, qual outro Absalam dos cabellos, com tanta força, que foi o mór impedimento que se lhe oppunha, e vencendo facilmente os outros, este perseverava; porque n'aquelles seus cabellos cuidava que consistia o sinal da generosidade do homem. Com este pensamento lutava, quando com a mesma generosidade, tornando sobre si, obrou huma acção digna de seu valor: tomou a tezoura, e alli mesmo por sua mão se cortou os bigodes, degolando juntamente com este golpe o Holofernes que o combatia: e d'esta maneira inhabilitado pera tornar a sua casa, pedio o recebessem logo: e com effeito, considerado acto tão fervoroso, foi recebido pelos Superiores, e mandado a Medina ao noviciado. Aqui procedeo segundo prometia o fervor do espiritó que o chamava, fazendo as cousas de obediencia com grande perfeição. Andando na cozinha esfregava as panelas, tachos, e até as proprias sertãs de ferro, com tanta exacção, que as deixava não só limpas, mas reluzentes e dizendo-lhe o Irmão Cozinheiro, pera que era cansar-se tanto em peças que logo tornavão ao fogo, e a denegrir-se? Respondeo o perfeito noviço: «Eu offereço cada noite à Virgem Senhora nossa todas as obras que faço entre dia, e tenho vergonha de offerecer-lhe huma peça mal esfregada, e pouco limpa.» Oh que bom exemplo pera nossas obras! Era homem de todo descarnado, e mortificado: em vez de guardanapo branco, e mimoso, de que no seculo costumava usar, quando comta no chão no Refeitorio, ou em pé, ou de joelhos, como he costume entre noviços, por acto de humildade, e mortificação; levava elle huma rodilha, ou espanador da cozinha mais sujo, e com este alimpava, não só as mãos, mas a boca, e rosto, folgando de parecer desprezivel aos olhos dos homens, por parecer fermoso nos de Deos. Na oração mental, basta dizer que era aquelle de quem contámos, que em Val de rosal perseverou de huma vez sette horas continuas de joelhos ante o Santissimo Sacramento, só ao sinal de huma palavra do Cozinheiro, que interpretou em seu favor.

88 Andava peregrinando, e doutrinando em companhia do Irmão João de Sá, que depois foi hum grande obreiro do Evangelho; vio-lhe o com

panheiro hum queixo inchado, e cheio de sangue, porque huma grande bespa lho estava picando tempo havia; e a não acudir o Irmão, a deixára continuar; porque já de então hia costumando-se tão bom soldado a derramar seu sangue por Christo. Era seu Mestre no noviciado aquelle grande varão de espirito, bem conhecido em toda a Companhia, e fóra d'ella, o santo Padre Balthesar Alvares: este nas praticas que fazia a seus noviços, procurava intimar-lhes sentenças espirituaes com tal força, que ficavão impressas na alma por toda a vida: entre ellas foi huma esta: «Irmãos meus, não degeneremos dos altos pensamentos de filhos de Deos.» Esta sentença se imprimio to intimamente no coração do nosso noviço, que lhe veio a servir na occasião de mór aperto que podia ter n'esta vida; porque no meio d'aquella cruel carniçaria dos hereges, a vozes altas brotava o fervor de Godoi, animando a seus Irmãos com ellas, como vimos: «Ermanos mios, no degeneremos de los altos pensamientos.»

89 A occasião com que foi escolhido pera esta empresa, he tambem digna de ser contada entre as mais traças divinas. Estava hum dia este servo de Deos ao lado de seu santo Mestre Balthesar Alvares, chamou por elle pera lhe mostrar certa cousa, e notou que pera haver de vel-a, foi necessario virar o Irmão o corpo todo a huma parte; d'onde colheo o prudente Mestre que padecia falta de vista de hum dos olhos, e vinha a ser o esquerdo, chamado da sacra: certificou-se d'elle, e não negou, dizendo que havia encoberto aquelle defeito no exame primeiro que se lhe fizera, por temer que seria de impedimentò pera ser recebido. Ficou com tanto sentimento o Mestre, quão grande era a affeição que tinha ao noviço; porque sabia que os Superiores o despedirião por aquelle defeito substancial pera o Sacerdocio: declarou-lhe este seu sentimento; e considerando seus grandes desejos de perseverar na Companhia, deo em huma traça; e foi, que pediria ao Padre Ignacio de Azevedo quizesse leval-o pera o Brasil, onde mais se sofria defeito semelhante, e se recompensava com o espirito que sentia de ajudar aquella gentilidade, e outras partes de boa sciencia de Direito Canonico, e canto de orgão, em que era versado. Tratou com effeito com o Padre Ignacio, informou-o de tudo, e acabou com elle fosse admittido; servindo-lhe aquella falta natural de occasião de tão grande głoria, e palma. Tudo isto diz em sustancia o Padre Luis da Ponte no cap. 20 da Vida do Padre Balthesar Alvares; e o traz tambem com pouca differença o Padre Sacchino na ш parte das Chronicas da Companhia, liv. 6, desde o n.o 214. Eusebio Nieremberg, tom. 2 dos Varões illustres, fol. 258. Ge

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