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the dizer mal de nós, ou outra cousa semelhante. Anda muito fervente e grande nosso amigo. Demos-lhe um barrete vermelho que nos ficou do mar, e humas calças. Traz-nos peixe e outras cousas da terra com grande amor. Não tem ainda noticia de nossa fé, ensinamos-lh'a. Madruga muito cedo a tomar lição, e depois vai aos moços a ajudal-os ás obras. Este diz, que fará Christãos a seus irmãos e mulheres, e quantos, puder. Espero em o Senhor que este ha de ser um grande meio e exemplo para todos os outros, os quaes lhe vão já tendo grande inveja por verem os mimos e favores que lhe fazemos. Um dia comeu comnosco å meza perante dez ou onze, ou mais, dos seus, os quaes se espantaram do favor que lhe davamos. Parece-me que não podemos deixar de dar a roupa que trouxemos a estes que querem ser Christãos, repartindo-lh'a até ficarmos todos iguaes com elles, ao menos por não escandalisar aos meus Irmãos de Coimbra, se souberem que por falta de algumas ciroulas deixa uma alma de ser christaa, e conhecer a seu Creador e Senbor, e dar-lhe gloria. Ego pro mi in tanto positus igne charitatis non cremor. Certo o Senhor quer ser conhecido d'estas gentes, e communicar com elles os thesouros dos merecimentos da sua paixão sicut aliquem te audivi prophetantem. E por tanto mi per compelle multas intrare naves et venire ad hanc, quam plantat Dominus vincam suam. Lá não são necessarias letras mais que para entre os Christãos nossos, porém, virtude e zelo da honra de Nosso Senhor he cá mui necessario. O Padre Leonardo Nunes mando aos Ilheos e Porto Seguro, a confessar aquella gente que tem nome de Christãos, porque me disseram de lá muitas miserias, e assim a saber o fruito que na terra se pode fazer. Elle escreverá a Vossa Reverendissima de cá largo. Leva por companheiro a Diogo Jacome, para ensinar a doutrina aos meninos, o que elle sabe bem fazer. Eu o fiz já ensaiar na náo, he um bom filho. Nós todos tres confessaremos esta gente, e depois espero que irá um de nós a uma povoação grande, das maiores e melhores d'esta terra, que se chama Pernambuco, e assim em muitas partes apresentaremos e convidaremos com o Cruxificado. Esta me parece agora a maior empreza de todas, segundo vejo a gente docil. Sómente tomo o máo exemplo que o nosso Christianismo lhes dá, porque ha homens que ha nove e dez annos que se não confessam. E parece-me que põe a felicidade em ter muitas mulheres. Dos Sacerdotes ouço cousas feas. Parece-me que devia Vossa Reverendissima de lembrar a Sua Alteza um Vigario Geral, porque sei que mais moverá o te

mor da justiça que o amor do Senhor. E não ha oleos para ungir, nem para bautizar, faça-os Vossa Reverendissima vir no primeiro navio; e parece-me que os havia de trazer um Padre dos nossos. Tambem me parece que Mestre João aproveitaria cá muito, porque a sua lingua he semelhante a esta, e mais aproveitar-nos-hemos cá da sua Theologia. A terra cá achamol-a boa e sãa. Todos estamos de saude; Deos seja louvado, mais sãos do que partimos. As mais novas da terra, e da nossa Cidade os Irmãos escreverão largo, e eu tambem pelas nãos quando partirem. Crie Vossa Reverendissima muitos filhos para cá que todos são necessarios. Eu um bem acho n'esta terra, e que não ajudará pouco a permanecerem depois na fé, que he ser a terra grossa. E todos tem bem o que hão miter, e a necessidade lhes não fará prejuizo algum. Estão espantados de ver a magestade com que entrámos e estamos, e temem-nos muito, o que tambem ajuda. Muito ha que dizer d'esta terra; mas deixo-o ao comento dos Charissimos Irmãos. O Governador he escolhido de Deos para isto, faz tudo com muito tento e siso. Nosso Senhor o conservará para reger este seu povo de Israel.—Tu autem per ora pro omnibus et presentim pro filiis quos enutristi.-Lance-nos a todos a benção de Christo Jesu Dulcissimo. D'esta Bahia, 1549.

MANOEL DA NOBREGA.

(Revista do Instituto, tom. v, pag. 328.)

CARTA II

AO PADRE MESTRE SIMÃO RODRIGUES

A graça e amor de Nosso Senhor Jesu Christo seja sempre em nosso favor-Amen.

Pela primeira via escrevi a V. R. e aos Irmãos largo, e agora tornarei a repetir algumas cousas, ao menos em somma, porque o portador d'esta, como testemunha de vista, me escusará de me alargar muito, e algumas cousas mais se poderão ver pela carta que escrevo ao Doutor Navarro. N'esta terra ha um grande peccado, que he terem os homens quasi todos suas negras por mancebas, e outras livres, que pedem aos negros por mulheres, segundo o costume da terra, que he terem muitas mulheres. E estas deixam-as quando lhes apraz, o que he grande escandalo para a nova Igreja que o Senhor quer fundar. Todos se me escusam que não tem mulheres com que casem. E conheço eu que casariam se achassem com quem; em tanto que uma mulher, ama de um homem casado, que veio n'esta armada, pelejavam sobre ella a quem a haveria por mulher. E uma escrava do Governador lhe pediam por mulher, e diziam que lh'a queriam forrar. Parece-me cousa mui conveniente mandar Sua Alteza algumas mulheres que lá tem pouco remedio de casamento a estas partes, ainda que fossem erradas, porque casarão todas mui bem, com tanto que não sejam taes o que de todo tenham perdido a vergonha a Deos, e ao mundo. E digo que todas casarão mui bem, por que he terra muito grossa e larga, e uma planta que se

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faz uma vez dura dez annos aquella novidade, por que assim como vão apanhando as raizes plantam logo os ramos, e logo arrebentam. De maneira que logo as mulheres teriam remedio de vida, e estes homens remediariam suas almas, e facilmente se povoaria a terra. E estes amancebados tenho amoestado por vezes, assi em pregações em geral, como em particular. E uns casam com algumas mulheres se se acham, outros com as mesmas negras, e outros pedem tempo para venderem as negras, ou se casarem. De maneira que todos, gloria ao Senhor, se põem em algum bom meio: sómente um que veio n'esta armada, o qual como chegou logo tomou uma India gentia, pedindo-a a seu pai, fazendo-a christãa, porque este he o costume dos Portuguezes d'esta terra, e cuidão n'isto obsequium se prestare Deo, porque dizem não ser peccado tão grande, não olhando a grande irreverencia que se faz ao sacramento do bautismo. E este amancebado, não dando por muitas amoestações que lhe tinha feito, se poz a permanecer com ella, o qual eu amoestei no pulpito que dentro d'aquella semana a deitasse fora, sob pena de The prohibir o ingresso da Igreja; o que fiz por ser peccado mui notorio, e escandaloso, e elle pessoa de quem se esperava outra cousa. E muitos tomavão occasião de tomarem outras. O que tudo Nosso Senhor remediou com isto que lhe fiz. Porque logo a deitou de casa, e os outros que o tinham imitado no mal, o imitaram tambem n'isto, que botaram tambem as suas, antes que mais se soubesse. E agora ficou grande meu amigo. Agora ninguem de que se presuma mal merca estas escravas. N'este officio me metti em ausencia do Vigario Geral, parecendo-me que em cousas de tanta necessidade, Nosso Senhor me dava cuidado d'estas ovelhas. Alguns blasfemadores publicos do nome do Senhor havia, os quaes amoestamos por vezes em os sermões, lendo-lhes as penas do direito, e amoestando ao Ouvidor Geral que attentasse por isso. Gloria ao Senhor, vai-se já perdendo este mão costume. E se acontece cahir algum pelo máo costume, vem-se a mim pedir-me penitencia. N'estes termos está esta gente. Agora temo que, vindo o Vigario Geral, que já he chegado a uma povoação aqui perto, se ousem alargar mais. Eu ladrarei quanto puder. Escrevi a Vossa Reverendissima ácerca dos saltos que se fazem n'esta terra, e de maravilha se acha cá escravo que não fosse tomado de salto; e he d'esta maneira que fazem pazes com os negros para lhe trazerem a vender o que tem, e por engano enchem os navios d'elles, e fogem com elles; e alguns dizem que o podem fazer por

os negros terem já feito mal aos Christãos. O que posto que seja assi, foi depois de terem muitos escandalos recebidos de nós. De maravilha se achará cá terra, onde os Christãos não fossem causa da guerra e dissenção, e tanto que n'esta Bahia, que he tido por um gentio dos peiores de todos, se levantou a guerra por Christãos. Porque um Padre, por lhe um Principal d'estes negros não dar o que lhe pedia, lhe lançou a morte, no que tanto imaginou que morreu, e mandou aos filhos que o vingassem. De maneira que os primeiros escandalos são por causa de Christãos: e certo que, deixando os máos costumes que eram de seus avós, em muitas cousas fazem avantagem aos Christãos, porque melhor moralmente vivem, e guardam melhor a lei da natureza. Alguns d'estes escravos me parece que seria bom juntal-os, e tornal-os á sua terra, e ficar cá um dos nossos para os ensinar, porque por aqui se ordenaria grande entrada com todo este gentio. Entre outros saltos que n'esta costa são feitos, um se fez ha dous annos muito cruel, que foi irem uns navios a um gentio, que chamam os Chacios, que estão além de S. Vicente; o qual todos dizem que he o melhor gentio d'esta costa, e mais apparelhado para se fazer fruito. Elle sómente tem duzentas legoas de terra; entre elles estavam convertidos e bautizados muitos. Morreo um d'estes clerigos: e ficou o outro, e proseguio o fruito: foram alli ter estes navios que digo, e tomaram o padre dentro em um dos navios com outros que com elle vinham, e levantaram as velas: os outros que ficaram em terra vieram em påos a bordo do navio, que levassem embora os negros, e que deixassem o seu padre; e por não quererem os dos navios, tornaram a dizer que, pois levavam o seu padre, que levassem tambem a elles, e logo os recolheram e os trouxeram, e o padre puzerão em terra; e os negros desembarcaram em uma capitania, para venderem alguns d'elles, e todos se acolheram á Igreja, dizendo que eram Christãos, e que sabiam as orações, e ajudar a missa, pedindo misericordia. Não lhes valeo, mas foram tirados e vendidos pelas capitanias d'esta costa. Agora me dizem que he lá ido o Padre a fazer queixumes. D'elle poderã saber mais largo o que passa. Agora temos assentado com o Governador, que nos mande dar estes negros, para os tornarmos á sua terra, e ficar lá Leonardo Nunes para os ensinar.

Desejo muito que Sua Alteza encommendasse isto muito ao Governador, digo, que mandasse provisão para que entregasse todos os escravos salteados para os tornarmos a sua terra, e que por parte da justiça se sai

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