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a huns por vergonha, a outros por vontade lhe pareceo bem de commetterem a fortaleza.

A segunda maravilha de Nosso Senhor, foi, que depois de combatida dous dias, e não se podendo entrar, e não tendo já os nossos polvora, mais que a que tinhão nas camaras para atirar; e tratando-se já como se poderiam recolher aos navios sem os matarem todos, e como poderiam recolher a artilheria, que haviam posto em terra, sabendo que na fortaleza estavam passante de sessenta Francezes de peleja, e mais de oitocentos Indios, e eram já mortos dos nossos dez ou doze homens com bombardas, e espingardas, mostrou então Nosso Senhor a sua misericordia, e deo tão grande medo nos Francezes e nos Indios, que com elles estavam, que se acolheram da fortaleza, e fugiram todos, deixando o que tinham sem o poderem levar.

Estes Francezes seguiam as heresias de Alemanha, principalmente as de Calvino, que está em Genebra, e segundo soube d'elles mesmos, e pelos livros que lhe acharam, muitos vinham a esta terra a semear estas heresias pelo Gentio; e segundo soube tinham mandado muitos meninos do gentio a aprendel-as ao mesmo Calvino, e outras partes para depois serem mestres, e d'estes levou alguns a Villagalhon, que era o que fizera aquella fortaleza, e se intitulava Rei do Brasil.

D'este se conta que dizia, que quando El-Rei de França o não quizesse favorecer para poder ganhar esta terra, que se havia de ir confederar com o Turco, promettendo-lhe de lhe dar por esta parte a conquista da India, e as nãos dos Portuguezes que de là viessem, porque poderia aqui fazer o Turco suas armadas com a muita madeira da terra; mas o Senhor olhou do alto tanta maldade, e houve misericordia da terra e de tanta perdição de almas, e mentita est iniquitas sibi, e desfez-lhe o ninho, e deo sua fortaleza em mão dos Portuguezes, a qual se destruio o que d'ella se podia derrubar, por não ter o Governador gente para logo povoar e fortificar como convinha.

Esta gente ficou entre os Indios, e esperam gente e soccorro de França, maiormente que dizem, que por El-Rei de França o mandar estavam alli para descobrirem os metaes que houvesse na terra: assim ha muitos Francezes espalhados por diversas partes, para melhor buscarem, Parece muito necessario povoar-se o Rio de Janeiro, e fazer-se n'elle outra cidade como a da Bahia, porque com ella ficará tudo guardado, assim esta Capitania de S. Vicente, como a do Espirito santo, que agora

estão bem fracas, e os Francezes lançados de todo fóra, e os Indios se poderem melhor subjeitar, e para isso mandar mais moradores que soldados, porque de outra maneira pode-se temer com razão ne redeat immundus spiritus cum aliis septem nequioribus se, et sint novissima peiora prioribus—; porque a fortaleza que se desmanchou, como era de pedras e rochas, que cavaram a picão, facilmente se póde tornar a reedificar, e fortalecer muito melhor.

Depois de tomada a fortaleza deo o Governador em uma aldea de Indios, e matou muitos, e não pôde fazer mais porque tinha necessidade de concertar os navios que das bombardas ficaram mal aviados, e fazel-os prestes para se tornarem, o que veio fazer a estar capitania de S. Vicente, onde eu fico por assim o ordenar a obediencia; o mais que houver para escrever ao Provincial, que agora é o Padre Luiz de Graa fará da Bahia. Nosso Senhor Jesus Christo dê a V. A. sempre a sua graça. Amen. De S. Vicente o 1.° de Junho de 1560.

MANOEL DA NOBREGA.

(Revista do Instituto, vol. v, pag. 328.)

FIM DAS CARTAS

INDICE GERAL

E AMPLISSIMO

DAS COUSAS MAIS NOTAVEIS

D'ESTA CHRONICA

A

PADRE AFFONSO BRAZ

He o primeiro da Companhia que foi à Capitania do Espirito santo liv. 1, num. 95.

He recebido com grande festa dos moradores, liv. 1, num. 97.

ALCAIDE MÓR

Vide Antonio de Oliveira.

PADRE ANTONIO PIRES

Vai pera o Brasil por companheiro do Padre Manoel da Nobrega, liv. 1, num. 24.

Visita Pernambuco por commissão do Bispo, liv. 1, num 114.

ANTONIO CARDOSO DE BARROS

He o primeiro Provedor do Brasil, liv. 1, num. 24.

Na sua não se embarcão os primeiros Padres da Companhia que forão ao ao Brasil, ibid.

Faz naufragio, e morre a mãos dos Indios Caetés, liv. 11, num. 17.

ANTONIO DE OLIVEIRA

Capitão de huma armada pera a Bahia, liv. 1, num. 94.

He Alcaide mór da Bahia, ibid.

PADRE ANTONIO RODRIGUES

Sua morte, e discurso da vida, liv. I, num. 124.

ANTONIO DA SILVEIRA

Defende com grande valor a fortaleza de Dio, liv. 11, num. 39.
He posto por El-Rei de França entre os varões famosos, ibid.

PADRE ANCHIETA

Vide Padre Joseph d'Anchieta.

ARMADA

Chega huma armada de Portugal á Bahia, liv. 1, num. 80.

Chega outra á Bahia, liv. num. 94.

Manda a Rainha D. Catherina huma armada ao Brasil pera lançar fóra do Rio de Janeiro aos Franceses, liv. 11, num. 74.

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Effeitos maravilhosos da agua benta, liv. 1, num. 116.

IRMÃO ADAM GONÇALVES

Quem foi, como entrou na Companhia, e procedeo n'ella, liv. 1, num. 79

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