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tinctamente, todos os termos ainda nao inventariados pelos lexicographos, de que teve conhecimento, sem preoccupação alguma de ordem philologica.

Assim pois, notou extensa serie de nomes vulgares, de animaes e vegetaes, procurando, quanto possivel, additarlhes a nomenclatura scientifica, grande numero de termos correntes no Estado de São Paulo e na zona fluminense, indicando, ao mesmo tempo, uma certa, quantidade de outros obtidos por informação particular e usados em differentes pontos do Brazil.

Trouxe lhe a leitura dos autores nacionaes regular contingente de palavras, assim com a dos periodicos; emprega o jornalismo brazileiro innumeras palavras que em Portugal não têm curso.

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O mesmo se dá com avultada copia de vocabulos derivados de outros, entre nós muito communs e que os diccionarios de alem mar não registam, provavelmente por não serem usados em Portugal. Assim é que no Brazil ninguem ignora termos de emprego frequentissimo como allista, biscatear, caçoista, desbriado, engraxate, filhotismo, gabolice, historiento, interessado (socio) jugular kiosqueiro, lambusaõ, marombar, nativismo, ogerisar, pirraçar, quatriennio, ribeirão, semvergonha, tilbureiro, uru guayo, varegista, warrantar, xadrezista, zabumbar, etc, etc, se nos restringirmos a algumas palavras das centenas, em condições identicas, que o nosso modesto trabalho inculca. É de crer, no emtanto, que, a Portugal, sejam extranhos visto como os diccionarios não os inserem.

Para esta classe de termos achámos conveniente ajuntar exemplificação.

O receio de avolumar demais o nosso vocabulario nos levou a resumir as indicações relativas às fontes onde colligimos as lacunas apontadas, supprimindo, frequenlemente, as particularisações correspondentes aos numeros de paginas de livros onde são encontrados os vocabulos em questão.

A continua leitura de livros brazileiros e o habito, desde algum tempo adoptado, da annotação das palavras avistadas pela primeira vez, deu nos o ensejo de reunir centenas, senão milhares, de brazileirismos e lacunas de toda a especie, quasi sem trabalho.

Os unicos meritos de que se reveste a nossa exigua relação de falhas provem da paciencia do colleccionador, outros não tem, de todo.

A facilidade com que, no espaço de quatro annos, conseguimos, quasi sem esforço notavel, ou pesquizas especiaes, nem grande dispendio de tempo, entre longas intermittencias, colleccionar maís de dez mil lacunas dos grandes lexicos portuguezes, constitue o mais seguro indicio de quanto é defficiente, ainda, o inventario da nossa lingua.

Oxalá possa o nosso insignificante trabalho excitar a curiosidade dos colleccionadores de brazileirismos das differentes zonas do paiz e incitalos á caçada dos provincianismos ao seu alcance, em resposta ao tão patriotico appello da Academia Brazileira, para que se opulente o patrimonio inventariado do idioma com as contribuções preciosas da linguagem brasilica.

AFFONSO D'ESCRAGNOLLE TAUNAY.

BIBLIOGRAPHIA

As fontes que nos forneceram maior contingente de lacunas foram: 0 Boletim mensal da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo; As madeiras do Estado de São Paulo, pelo Dr. Huascar Pereira; 0 Diccionario de Botanica, de Arruda Camara ; Sertum Palmarum, de Barbosa Rodrigues; Ensaios de materia medica vegetal, pelo Dr. Mello Oliveira; os catalogos das exposições parciaes dos diversos Estados, durante a Exposição Nacional de 1908, Monographias Agricolas, do Dr. Joaquim Carlos Travassos; 0 Pará em 1900; O Maranhão em 1896, publicações officiaes, Innocencia, Scenas de Viagem; Historias Brazileiras; Viagem de regresso do Visconde de Taunay; A caça no Brazil Central, pelo major Henrique Silva; Lepidopteros do Brazil, por Benedicto da Silva; As aves do Brazil, Album de Aves Amazonicas, os Mammiferos do Brazil. pelo Dr. Emilio A. Goeldi; Diccionario da Provincia do Espirito Santo, Diccionario da Provincia do Maranhão, do Dr. Cesar Augusto Marques; excerptos do Diccionario de brazileirismos, do Dr. Ermelino de Leão; Pescas e peixes da Bahia, pelo Almirante Alves Camara; Apontamentos sobre a provincia de São Paulo, de Azevedo Marques: As Missões Orientaes do Dr. Hemeterio Velloso da Silveira; Diccionario de Marinha, pelo Barão de Angra; Inferno Verde de Alberto Rangel ; Os Sertões, de Euclydes da Cunha; A Chapada Diamantina, de Theodoro Sampaio; Memoria sobre a Provincia de Santa Catharina, de Coelho e Galvão; Terra de Sol, de Gustavo Barroso; Viagem ao Alto Tocantins, pelo Dr. Ignacio de Moura; Viagem ao Madeira, pelo Conego Francisco Bernardino de Souza, O Brazil, publicação do Centro Industrial do Brazil, numerosas

memorias insertas nas collecções da Revista do Instituto Historico e Geographico Brazileiro, da Revista do Instituto Historico e Geographico de São Paulo, da Revista do Museu Paraense, da Revista do Museu Paulista, dos Archivos do Museu Nacional, dos relatorios da Commissão Geographica e Geologica do Estado de São Paulo, da Commissão demarcadora do novo Districto Federal, das revistas dos Institutos Historico e Geographico da Parahyba do Norte, do Ceará, do Archivo Mineiro, alem de avultado numero de obras de escriptores brazileiros, vivos e já desapparecidos, como se poderá ver das referencias a ellas

feitas.

Tivemos ainda preciosas informações de dedicados amigos, entre os quaes mencionaremos, sobretudo, o Snr. Dr. Eurico Teixeira Leite, de quem recebemos o mais valioso auxilio, e a quem somos summamente grato.

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A

Abacaterana, s. m. Arvore cujo lenho é aproveitavel para obras internas. Ap. Catalogo da Exposição Nacional de 1908 no Rio de Janeiro.

Abacaxi, s. m. (giria). Alcunha depreciativa dada aos portuguezes no Rio de Janeiro.

Abafamento, s. m. (gir.). Subtracção de uma quantia. « O thesoureiro ao dar o balanço verificou o abafamento de dez contos de reis por parte de um fiel. »

Abafar, v. t. (gir.). Appropriar-se indebitamente de um objecto ou quantia. « O tutor abafou as apolices do infeliz pupillo arruinando-o. »>

Abafar, v. t. Desfazer o bolso da vela produzido pelo vento. Ap. «Diccionario de Marinha » do Barão de Angra.

Abagualado, part. Tornado selvagem, bagual. Cf. Dicc. de brazileirismos de Leão.

Abagualar-se v. pr. Tornar-se selvagem. Termo corrente no E. do Paraná. Ib.

Abaixador, s. m. Nome que os pescadores bahianos dão aos homens que mergulham para verificar se nas redes ha bastante peixe preso. Cf. Almirante Alves Camara, Pescas e peixes da Bahia, p. 20.

Abalador, adj. Que abala. « O desastre eleitoral abalador do prestigio politico do deputado X...

Abalo, s. m. Nome de certa rede de pesca no littoral bahiano. Cf. Almirante Alves Camara, p. 16.

Abaraiba, s. f. Nome que em certas zonas brazileiras dão á aroeira. Ap. Caminhoá : Botanica.

Abelha de cachorro, s. f. Nome de certa trigonida sylvestre. Ap. Boletim de Agricultura do Estado de São Paulo.

Aberdeen, s. f. Raça bovina escosseza. Ap. Cornevin, « Zootechnia ».

Abiegna s. f. Resina produzida por uma cecropia da familia das artocarpeas. Ap. Diccionario de Botanica de Arruda Camara.

Abiscoitar, v. t. (giria). Surripiar. « O padrasto abiscoitou todo o dinheiro dos enteados arruinando-os. »

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