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tenha encontrado nesses logares de fabrico um artefacto zoomorpho principiado ou arruinado? E' porque os sambaquieros não os fazião! — Como estes objectos de verdadeira arte vieram então parar nas mãos d'elles? E' porque os herdaram dos seus antepassados, que tinham maior habili dade e possuiam uma cultura, que os sambaquieiros, em viagens de duração de seculos, perderam. Creio serem objectos do culto. »

Para elucidar esta questão, procedendo a estudos comparativos deante de objectos de fórmas semelhantes em collecções ethnographico-archeologicas, feitas em outros paizes, escreve o erudito Prof. Dr. H. von Ihering (1): « em Buenos Aires, em varias collecções publicas, vi almofarizes em forma de aves voando, isto é ornithomorphos, hem semelhantes aos dos sambaquis. Eis pela primeira vez achados archeologicos, que admittem, ou antes provocam uma comparação da cultura dos sambaquis com outra, que é a dos Calchaquis.

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Tambem o illustrado Dr. João Coelho Gomes Ribeiro, na sua « Historia de São Paulo » presta a devida attenção a este assumpto e relata que no Perú, de onde procedia, em parte, a cultura calchaqui, foram encontradas estatuetas e cabeças de homem de pedra, bem semelhantes ao idolo de Iguape. No mesmo estudo se acham tambem historiadas as particularidades da descoberta do idolo e sua descripção geral.

Uma vez reconhecida a possibilidade de uma comparação dos zoolithos dos sambaquis com artefactos de origem calchaquiana, impôe-sc-nos, immediatamente, a supposição de uma emigração d'aquelle povo andino para as nossas plagas; e, indagaremos, qual terá sido a causa que levou todo um povo a abandonar a sua patria, qual a mola secreta que lheguiou os passos, e em que epoca do immensuravel espaço da nossa prehistoria pode ter tido logar uma migração tão importante.

Conhecemos ser os Calchaquis do tempo da conquista um povo guerreiro por excellencia, que porem estava, ha seculos, em dependencia da poderosa nação dos Incas e devemos, julgar que a reconhecida tolerancia, usada pelas Incas em suas façanhas bellicosas, para com os povos submettidos ao seu jugo, tinha talvez o fim especial de evitar uma emigração, porque assim cobrariam com facilidade os seus tributos, emquanto de nada lhes serviriam terras longinquas despovoadas. Por isto, certamente, não foi o choque que os Calchaquis em tempo remoto tiveram com os Incas, que causou a sua emigração.

Informa-nos o Dr. von Ihering (2) que pelas observações do «Fr. P. Moreno » deve suppor-se ter existido já antes dos Calchaquis uma cultura superior, que presumivelmente pertencia a outro povo expulso pelos Calchaquis. Ahi temos

(1) Revista do Museu Paulista, v. VII, pag. 246 (1904). (2) Revista do Museu Paulista, vol. I, pag. 139 (1895).

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talvez uma pista valiosa e futuras pesquisas argentinas podem muito bem trazer mais luz a este respeito. As conchas do Oceano Pacifico, encontradas em urnas funerarias calchaquis, indicam, quiça, a procedencia dos Calchaquis de hoje, representando o povo rechaçado os avoengos dos Sambaquieiros.

Ainda em favor desta indicação acresce a circumstancia do povo dos sambaquis não ter sabido fazer louça de barro, habilidade que um povo não perde, visto ainda hoje ser uso de muitos aborigenes do Brazil abandonar a sua louça em occasião de mudanças e substituil-a depois por nova.

Sabemos que o principal culto dos povos da região andina da Argentina tinha por objecto o Sol e por isso não nos deve surprehender, que foi contra o nascente, que, em qualquer tempo remotissimo, se dirigiram lotes d'aquelles indios, expulsos do seu paiz, em procura de terras onde estivessem socegados.

Provavelmente seguiram-se muitas gerações durante esta migração e quando, depois de numerosos seculos, o Oceano Atlantico impoz um paradeiro a este movimento, após um percurso de mais de 1500 kilometros, já se tinha modificado a indole e provavelmente tambem o aspecto geral d'estes aborigenes, que de sessis que eram, se tornaram nomadas.

Certamente passaram de pae para filho os preceitos da sua primitiva religião; e, cautelosamente, procuraram guardar os idolos e outros objectos cultuaes, trazidos da sua patria. As armas, sendo objectos de uso diario, foram gastas e finalmente inutilisadas, mas substituidas por outras feitas de novo, mais ou menos pelos antigos modelos, porém cada vez menos bem acabadas, até que, para uma ponta de flecha se serviram de uma simples lasca de pedra, ou mal acabaram um corte de machado, contentando-se em dar-lhe um gume, sem tratar de alisar o resto. São estas as armas encontradas nos primitivos sambaquis (Est. n° 4), distantes dezenas de kilometros da costa actual, e no fundo de um destes sambaquis tive a fortuna de achar um ornitholitho (Est. n° 3) de feitio primoroso.

Aquelle grande espaço de tempo que abrange a « migração » dos indios errantes, expulsos do paiz da sua origem, até sua chegada á costa oriental do continente, deve ser considerado um dos periodos prehistoricos, em referencia aos indios do littoral do Brazil meridional, e futuras descobertas archeologicas no interior do nosso paiz, acharão assim uma satisfactoria explicação.

Para evitar deducções erroneas, torna-se necessario tomar em conta a grande antiquidade dos primeiros sambaquis.

Já nas minhas « Informações Ethnographicas >> affirmo que o inicio da formação dos casqueiros deve ter tido logar na epoca pleistocena, porque a posição dos primitivos samba

quis indica uma antiga linha da costa marinha (1) e todo o espaço comprehendido dentro da grande curva por elles demarcada, era uma larga bahia, cuja superficie passava de mil e duzentos kilometros quadrados (Est. no 5).

Esta bahia encheu-se depois, durante o tempo quaternario, por detritos trazidos pelo Rio Ribeira e, á medida que a linha da costa avançava, em seguimento á lenta consolidação do terreno, eram os indios forçados a abandonar os seus sambaquis, por falta de viveres na vizinhança e estabelecerse successivamente de novo, ate a costa adquirir mais ou menos a sua forma actual. O facto de augmentar os casqueiros na proximidade da costa, tanto em numero como em volume, se acha detalhadamente explicado nas «< Informações. »

Observando a differença que existe entre os objectos encontrados nos antigos e nos modernos sambaquis, notamos uma sensivel modificação de aperfeiçoamento, mostrando armas e utensilios de procedencia mais recente, crescido gosto de formas e maior dedicação no seu acabamento. Resulta d'ahi a conclusão que os aborigenes andinos, embrutecidos durante a longa migração, se tornaram novamente um povo sessil nos sambaquis.

O vastissimo espaço de tempo, que abrange a solidificação da bahia da Ribeira e com ella a construcção dos sambaquis, representa um segundo periodo prehistorico local.

Procurando reconstruir o seguimento chronologico dos acontecimentos prehistoricos na região do littoral, devemos prestar attenção ao achado dos primeiros estilhaços de louça grosseira, descobertos na camada superior de alguns dos modernos sambaquis, assim como no encontro de dois esqueletos entrelaçados, achados no cume do « Casqueiro Grande » do Boguassú.

Se, como parece, o povo que supplantou na costa a raça sambaquieira, sabia fazer louça de barro, não era elle conchyliophago, visto não existir um casqueiro, que tivesse cacos de louça promiscuamente no seu conteúdo.

Quem eram estes indios, de onde vinham; ainda não sabemos. Só conhecemos d'elles urnas funerarias, feitas por enroscamento e munidas de tampa grande.

Fóra destas urnas, de feitio o mais rustico possivel, encontramos mais dois typos distinctos, que revelam, da parte dos seus fabricantes, maior pericia na arte ceramica, mas a exiguidade das ossadas n'ellas encontradas, ainda não autorisa a formar uma opinião decisiva; — se cada typo representa a passagem de um outro povo, ou se os primitivos oleiros da costa, com o tempo, por iniciativa propria ou por espirito de imitação de costumes alheios, progrediram n'esta arte, a ponto de produzir vasilhas de formas um pouco mais esthe

(1)« Contribuições para a Ethnologia Paulista »> (mihi). Revista do Instituto Historico e Geographico de São Paulo, vol. VII, 1902.

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