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lhes concedeu que os ditos coronel, ministros, capitães, soldados, officiaes e toda a gente de mar, e todos os mais hollandezes, flamengos, inglezes, francezes, allemães, como sejam dos que trouxeram comsigo, saiam livremente sem nenhum impedimento com toda sua roupa, de vestir e dormir, e que os coroneis, capitães, e officiaes possam levar em babús e caixas a dita roupa, e não outra cousa, e os soldados em suas mochilas, que o Sr. D. Fradique de Toledolhe dará um passaporte para todos os navios de S. Magestade para que lhes não faça mal algum não indo fora da derrota de sua terra.

O dito Sr. D. Fradique lhes dará embarcação em que commodamente possam ir à sua terra, e bastimentos necessarios para tres mezes e meio; e que toda a dita gente hão de sahir da cidade todos juntos, que o Sr. D. Fradique ha de signalar pessoas que visitem os sobreditos, e mais pessoas que sabirem para que vejam se levam alguma cousa fóra do capitulado. Que o Sr, D. Fradique haverá de restituir ao coronel todos os prisioneiros que se acharem aqui de sua nação, que nenhum soldado d'este exercito do dito Sr. D. Fradique fará aggravo algum aos soldados e gente sobredita do dito coronel, que lhes dará os instrumentos da navegação,que tem em seus navios, e que o Sr. D. Fradique lhes dará as armas necessarias parà a sua defensa na viagem, e que até os mesmos navios sahiriam sem armas algumas, excepto os capitãos que poderão levar espadas: que o dito coronel dará esta noite uma porta com seu corpo de guardaao dito Sr. D. Fradique dentro dos muros, e o dito Sr. D. Fradique lhes dará refens ao seu contento para sua seguridade, entretanto que estas capitulações se cumprem. Feita no quartel do Carmo,30 de Abril de 625.-D. Fradique de Toledo Osorio. A presa que se achou, e seu inventario, pelos ministros de Sua Magestade.

Quando entrou a nossa armada n'esta Bahia tinha o inimigo n'ella 21 navios e 4 lanchas dos quaes deitou elle mesmo um a pique para impedir que não podessem chegar aos mais outros 2 de fogo, deitou sobre nossa armada. Outro tambem deitou fogo, que não empregou, e estão bolados a travez: 7 melteu a pique a nossa artilheria, de que foram

batidos do quartel do Carmo, e outra bateria. Duas das ditas lanchas estão tão mal paradas, que não são de proveito; as outras duas se tratam de as concertar, e os seis navios restantes, que ficaram menos destroçados se apparelham para os levarem com a armada; e se dos ditos 7 que estão a pique se poderem tirar 2, em que se faz grande diligencia por um ser a capitanea, e outro novo, se levarem lambem.

Um dos ditos 6 navios que se hão de levar o tinham com algumas mercadorias, de que se fez inventario, e são: 89 caixas de assucar, 98 dentes de marfim, 994 couros de vaccas ao pello, c 14,000 madrassos de assucar mui negro.

Acharam-se nas casas de S. Magestade onde estava aposentado o governador hollandez 3 arcas com a prata seguinte:

17.420 reales em moeda em um taleigo.

462 pinhas, que pesaram 6.176 112 marcos.

1.625 marcos em quantidade de pessas lavradas de serviço, parte d'ellas mui us idas, e outras quebradas, amolgadas e em pedaços.

No collegio da companhia de Jezus, e em duas casas de particulares, e outras que estavam na praia, se acharam algumas mercadorias, que se pôzeram a recado, d'ellas vão fazendo inventario, e não se declaram as que são, porque ainda o inventario não está acabado e durará alguns dias; porque a maior parle são cousas miudas de mercearia.

Assim mesmo se achou na cidade e praia algum biscouto, vinho e farinha de trigo, em que tambem se poz cobro e não vai declarada a quantidade, porque, como digo, não está dado fim ao inventario, e d'elle se vai dando de comer aos inimigos.

Prenderam todos os negros que acharam na cidade, que são de tres castas: uns que fugiram a seus amos, e ajudavam ao inimigo; outros que elles tinham forçados sem culpa sua, nem de seus donos, cos demais cram captivos que tinham tomado de presa nos navios que vinham de Angola. O auditor general, vai fazendo as averiguações; para castigar aos primeiros, e restituir os segundos e terceiros os que tiverem donos que os peçam, e feito isto os que se acharem sem donos se venderão: co dinheiro se porá em deposito, até passar o anno e dia, e se dentro d'este

tempo não acudirem os donos se applicara para a presa, que assim está de accordo o auditor general, e vai fazendo as diligencias que convém, o porque ainda não tem averiguado os que serão estes, não vai aqui a quantidade declarada: feita na cidade de S. Salvador da Bahia de todos os Santos provincia do Brasil, a quinze de Maio de 1625.

BIOGRAPHIA

DOS BRASILEIROS ILLUSTRES POR ARMAS, LETRAS,
VIRTUDES, ETC.

TENENTE-GENERAL JOSE' AROUCHE DE TOLEDO RENDON.

O distincto paulista, Sr. José A rouche de Toledo Rendon, nasceu na imperial cidade de S. Paulo aos 14 de Março de 1756: foram seus pais o mestre de campo Agostinho Delgado de Toledo Arouche, e sua mulher D. Maria Thereza Laura de Araujo, ambos descendentes das mais illustres familias do paiz, e que contavam entre os seus avós ó insigne Amador Bueno da Ribeira. Destinado a carreira das letras, na idade de 18 annos foi mandado á Universidade de Coimbra, onde recebeu o grau de bacharel formado em leis a 3 de Julho de 1779.

Não querendo seguir a carreira da magistratura, voltou à sua patria, e applicou-se a advocacia, que lhe forneceu muitas occasiões de patentear seus vastos conhecimentos juridicos, os quaes muito mais se manifestaram no exercicio dos cargos de juiz de medições, ordinario, de orphãos, de procurador da coroa e fazenda nacional, que por muitos annos exerceu na sua patria.

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Não contente em servir ao seu paiz como homem de letras, o Sr. Arouche, por occasião de organisarem-se os regimentos de milicias n'esta provincia de S. Paulo, assentou praça de capitão aggregado ao 1. regimento de infantaria. Possuido da nobre ambição de distinguirse igualmente na carreira das armas, applicou-se ao estudo das sciencias militares, de maneira, que tendo sido promovido depois a coronel do seu regimento, e a inspector geral das milicias, além de dadivas consideraveis que fez ao seu regimento, estabeleceu em sua casa uma aula particular para o estudo theorico das manobras das armas de infantaria e cavallaria, com o que pôde formar habeis officiaes; e com os continuados exercicios que fazia com os corpos milicianos do seu commando, conseguiu conservar as milicias no melhor estado de disciplina.

Seu prestimo foi approveitado sempre pelos diversos capitães generaes que governaram esta provincia, que o empregaram em diversas commissões, as quaes constantemente desempenhou com zelo e intelligencia. Encarregado da direcção das aldeas dos indios pelo general Antonio Manoel de Mello e Castro Mendonça, escreveu uma memoria sobre a civilisação dos indios, que sendo publicada pelo seu auctor logo depois da independencia do Brasil, se acha reimpressa no lom. IV pag. 295 do jornal d'este Instituto. Quando em 1813 serios receios havia de invasão de tropas estrangeiras, foi encarregado do commando

das villas do norte da provincia pelo General João Carlos Augusto de Oyenhausen, depois marquez de Aracaty, e n'essa honrosa commissão se conservou até fins de 1820. Tantos é tão valiosos serviços prestou na carreira das armas, que foi promovido aos diversos postos de brigadeiro, marechal, e ultimamente de tenente-general em 1829.

Era chegada a grande épocha da independencia do Brasil, a aurora da liberdade tinha despontado com a proclamação do systema constitucional, pelas côrtes constituintes da nação Portugueza; e quando o Brasil contava partilhar a mesma sorte que Portugal se preparava, o espirito metropolitano predominava n'aquella assemble; e para melhor conseguirem seus fins, as cortes decretaram a extincção de varios tribunaes que existiam no Brasil desde a mudança da casa real Portugueza, e que o principe regente, que ficára lugar-teuente de seu pai, quando o senhor D. João VI teve de regressar a Portugal, deixasse o Brasil, e assin: ficasse este reino, a parte mais consideravel e interessante da monarchia portugueza, reduzido á triste condição de colonia, da qual, de facto e de direito, ha muitos annos havia sahido.

N'esta crise não houve brasileiro illustrado e patriota, que não anhelasse pela independencia; e o Sr. Arouche, em quem a illustração e patriotismo se achavam em gráu eminente, não podia deixar de abraçar de todo o coração a causa da patria. Resolvendo a provincia de S. Paulo mandar uma deputação ao principe Regente, pedindo-lhe que não se ausentasse do Brasil, foi o Sr. Arouche um dos membros d'essa honrosa e patriotica deputação: e achando-se por esse motivo na côrte, teve occasião de cooperar para o embarque das tropas luzitanas ao commando do generál Jorge de Avilez.

Eleito deputado á assembléa constituinte do Brasil, no tempo em que a urna eleitoral, ainda não desnaturalisada pelas ambições, ex. primia o voto popular; n'ella trabalhou até a sua dissolução a 11 de Novembro de 1823. De novo eleito deputado á assemblea geral legislativa em 1824, pediu e obteve dispensa de tomar assento, allegando o seu estado valetudinario, e sua avançada idade. Entretanto na sua provincia não se negou jámais a prestar seus valiosos serviços, tanto no conselho do governo, como no conselho geral.

Tendo sido creada pela lei de 11 de Agosto de 1827 uma academia de sciencias juridicas e sociaes n'esta cidade de S. Paulo, foi o Sr. Arouche nomeado seu director. Sem duvida em ningnem melhor podia recahir esta nomeação, não só pelas suas qualidades pessoaes, como porque era a realisação de um pensamento pelo qual muito pugnára na assembléa constituinte, e entre os seus innumeraveis amigos da côrte. Sabio, prudente, zeloso, affavel e jovial mesmo, foi sempre respeitado e amado pelo corpo academico, que muito se contristou com a demissão que lhe foi dada por decreto de 19 de Agosto de 1833, demissão por elle tantas vezes solicitada, e sempre procrastinada pelo governo, que sabia apreciar o seu merecimento, e fazia justiça aos seus importantes serviços.

Bem persuadido de quanto era conveniente promover o engrandecimento material do paiz, foi um dos principaes accionistas da

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