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os Indios da Bahia, no meio de tantas difficuldades: a com que emprehendeo a insigne obra das pazes dos Tamoyos: e a da conquista, e povoação do Rio de Janeiro, contra toda a prudencia dos homens, foi grande prova do proposto intento.

143 Não faltárão a este insigne varão casos maravilhosos, com que o Ceo mostrou approvar seu espirito. Não foi milagroso aquelle caso, quando a modo de desencaixados os elementos, vingárão indignados a lançadas de raios, as indecencias do culto divino, e o desprezo do servo do Senhor? Que mais fez em favor de Elias?

144 Na viagem do Brasil, em prova da resolução que déra ao Governador Thomé de Sousa, que não era agradavel a Deos aquella sua devação que fazia, de não comer cabeça alguma, em veneração da do Bautista; não foi assás sobrenatural aquelle prodigioso desengano, com que traçou o Ceo, que viesse na linha lançada ao mar, huma só cabeça de peixe; porque fosse forçado o fidalgo a comer cabeça? Aquelle imperio com que mandou ao Padre Vicente Rodrigues enfermo de hum anno, e perseverante na doença, em virtude da santa obediencia, que se levantasse, e fosse ajudar ao proximo; não foi confiança milagrosa, em que exercitou acto de imperio sobre accidente tão pertinaz? e em que desiste por obediencia o mal? Este caso celebra Orlandino no livro xI de nossas Chronicas, n.° 78, com titulo de instincto divino. «Divino prorsus, ut videtur, instinctu, imperat ægrotanti, ut obedientiæ nomine morbum abigat, et se proximis reddat:» como dizendo, que obrou aqui Nobrega com instincto divino, E mais claro o disse Anchieta em seus Apontamentos.

145 Com a mesma efficacia acudia o Ceo por sua vida, que por sua palavra. Não foi menos admiravel o successo com que Deos o livrou do perigo d'aquella medonha tempestade, quando indo visitar a Provincia em companhia do Governador Mem de Sá, se foi o navio ao fundo, e andou elle sobre as agoas tempo consideravel, não sabendo nadar. Imitou aqui Nobrega a fé de Pedro sobre o mar: e Christo com elle o fayor de não se afundir em as agoas. Com outra maravilha guardou segunda vez a vida de seu servo, na occasião da balea, monstro assanhado, que o assaltou no mesmo lugar, em companhia do Padre Ignacio de Azevedo, Luis da Gram, e. Joseph de Anchieta. A Nobrega se attribuio tambem o milagre da fonte prodigiosa de Porto seguro, e muitos outros em diversos lugares.

146 A seu espirito de prophecia attribue o mesmo Joseph, o com que affirmou aos Tamoyos de Igperoig, que no ponto que quebrassem as pazes

aos Portugueses, havião de ser destruidos: o com que ameaçou graves castigos aos moradores de S. Vicente, pelas injustiças que commetião contra os Indios; com tanta certeza, como se já os vira, mandando que os Padres, e Irmãos sahissem pelas ruas publicas tomando disciplina, e pedindo ao Ceo misericordia. Ao Irmão Vicente Rodrigues, enfermo de graves, e continuas dores de cabeça havia muitos annos sem remedio algum, disse: «Vós Irmão não haveis de sarar, senão quando faltar todo o necessario, e então vos hão de cahir os dentes.» Aconteceo assi, diz Joseph; porque sendo mandado á missão do Rio de Janeiro, padecendo alli gravissimas fomes, e falta de tudo o necessario no aperto da guerra, então sarou perfeitamente; e sarando, lhe começárão a cahir os doentes, até despovoarem a boca, como dissera o servo de Deos. Em muitos outros casos reconhecerão seu espirito de prophecia, Joseph de Anchieta, e outros varões graves d'aquelle tempo. E supposto que não depende a santidade de prophecias, ou milagres; he comtudo indicio de varões excellentes, e com que costuma o Ceo approvar suas obras.

147 E temos visto em breve summa as cousas notaveis do servo do Senhor o Padre Manoel da Nobrega, fundador, e primeiro Apostolo da Provincia do Brasil: a cujo exemplo proseguirão os que após elle trabalhárão na conversão da gentilidade d'este novo mundo. Cuja santidade foi tão rara, que sendo que concorrêrão com elle varões em todo o genero tão illustres; hum Joseph de Anchieta, Luis da Gram, Leonardo Nunes, João Aspilcueta Navarro, e tantos outros, quantos tem mostrado a historia, e venera hoje a Provincia: todos esses em comparação de Nobrega se reputavão a si mesmos na virtude pygmeos, á vista de hum gigante: assi seguião a luz de seu exemplo, assi imitavão seus dictames, assi punhão em execução suas ordens, como se n'aquelle só espirito reconhecessem juntas as excellencias de todos. E não sómente no Brasil; em Roma, em Portugal, em o mundo todo foi conhecida sua santidade; ao menos pela empresa que tomou a seus hombros, igual á de hum Xavier: ficando partida entre estes dous varões apostolicos a conversão da gentilidade do mundo: a Xavier ficou a do Oriente; a Nobrega a do Occidente. Tratárão d'este servo de Deos, o veneravel Padre Joseph de Anchieta em seus Apontamentos. O Padre Orlandino, primeira parte das Chronicas da Companhia em muitos lugares de seus livros. Sacchino ш part., liv. 6, n.o 265. O Padre Balthesar Telles nas Chronicas de Portugal, part. 1, liv. 3, cap. 2, e d'ahi em diante. E nós nada mais trataremos por hora: pare a penna em escrever, onde pára Nobrega

em obrar a suas empresas especialmente se dedića este tomo primeiro por primeiro Apostolo do Brasil; como outro se dedicou a Xavier, por primeiro Apostolo da India; outro a Ignacio Patriarcha nosso, por primeiro Geral da Companhia. Andarão os tempos, e irão sahindo tomos varios, devidos a varões da mesma empresa, que se bem não forão n'ella os primeiros, não forão segundos nas virtudes.

FINIS LAUS DEO VIRGINIQUE MATRI.

Os versos que se seguem são os que prometi no livro m, folha 310 d'esta obra (*), por não interromper a leitura; e são os que o veneravel Padre Joseph de Anchieta compoz, quando esteve em refens entre os · Indios barbaros, com ajuda da Virgem, escrevendo-os na praia em lugar de papel, que alli não tinha, nem tinta.

JESUS MARIA

DE BEATA VIRGINE DEI

MATRE MARIA.

Eloquar? an sileam, sanctissima Mater Jesu?
Num sileam? laudes eloquar annè tuas ?
Mens agitata pij stimulis hortatur amoris
Ut Dominae cantem carmina paucae meae.
Sed timet impurâ tua promere nomina linguâ,
Quae sordet multis contemerat malis.
Scilicet illius, quae clausit ventre Tonantem
Audebit laudes lingua profana loqui ?

Mens stupefacta fugit, nisi quòd tuus optima Virgo
Corde metum pavido cedere cogit amor.
Quid faciam? quare trepidem? cur nostra rigescent
Pectora? cur de te lingua silebit iners?

Ipsa loqui cogis, tu vires sufficis ipsa
Dicere conanti, refficis ipsa manus.

Tu pietate foves materna, animumque jacentem
Erigis, aethereis accumulasque bonis.
Sydereae tangar si non ego Matris amore,
Si mea non dicant Virginis ora decus;
Duritiâ silicis, ferrique aerisque rigorem

Vincat, et invictum cor adamanta meum.
Quis mihi virgineos sub pectore claudere vultus
Praestet, ut ardenter te pia Mater amem?
Tu mihi cum chara sis unica Prole voluptas,
Tu desiderium cordis, amorque mei.

() Corresponde ao vol. 1, pag. 21 da presente edição.

DE CONCEPTIONE VIRGINIS MARIE

Te priùs aethereos verbo quam conderet orbes,
Ante Deus latam quam fabricaret humum,
Te priùs aeterna concepit mente futuram
Cum pura Matrem virginitate suam.
Ó tu qualis eras divini ante ora parentis

Cum mundum coeli condita turma foret?
Nondum lativagi diffluxerat aequoris unda,
Nec vagus obliquis fluxerat amnis aquis;
Nondum faecundo manarant gurgite fontes,
Nec juga constiterant ardua mole gravi:
Et tu jam summi concepta in mente Parentis,
Cujus ventre Deus conciperetur, eras.
Quae foedis mundum purgares sordibus omnem,
Et fieres plagis vera medella meis.
Qualis es ó Virgo ! quantum dilecta superno
Artifici! qualis forma decorque tuus!
Tu ventura salus primo promissa parenti,
Quae Vitam casto viscera nixa fores.
Ut quos mortiferis infecerat Eva venenis,
Concepta Antidotum tu sine labe dares.
Foemineo expavit versutus nomine serpens,
Cujus capta fuit foemina prima dolis.
Scilicet ipsa tuae concepta in ventre parentis
Quod maculat cunctas crimine sola cares.
Comminuisque caput sinuosi calce Draconis,
Et depressa tuo sub pede colla tenes.
Tota refulgenti resplendes pulchra decore,
Tota cares naevo, dulcis amica Dei.
Nulla tuo labes peccati pectori inhaeret:
Num laedit specimen vel nota parva tuam?
Ó speciosa nimis, virtutum compta nitore,
Quae potes angelicos exuperare choros.
Fige tuum nostro Virgo immaculata decorem
Pectore, forma oculos attrahat ista meos.
Scilicet haec magnos capiebat forma Prophetas,
Qui te carminibus praecinuere suis.
Illi te variis praesignavere figuris,

Optantes Proles ut tua ferret opem. Quam cuperent illi coeli splendore nitentis Ó formosa oculos cernere Virgo tuos ! Quam vellent coram divinam haurire loquelam, Manabatque tuo dulce quod ore melos!

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